Festival Cultural Reza Santo Antônio dos Pobres

Fé, Ancestralidade e Resistência na Baixada Fluminense

Conheça a história do evento que nasceu de uma reunião intimista no terreiro e se consolidou como um dos maiores movimentos de sincretismo religioso, cultura popular e solidariedade de Duque de Caxias.

Tudo começou em 2018, de maneira simples e singela. O desejo de celebrar Santo Antônio nasceu no coração de amigos próximos ao terreiro Ilê Ògún Megégé – Asé Barulépè, fundado em 1944 por Pai Valdemiro T' Sàngó. A ideia de trazer essa celebração para o centro da vida comunitária foi concretizada pelo Bàbàlorísá Sandro T' Òsógìyan, neto de Valdemiro.A inspiração surgiu após Sandro participar de uma homenagem a Santo Antônio na casa do Bàbàlorísá Celso de Ògun (Asé Ògun Wares). O gesto reacendeu a lembrança da profunda devoção que seu avô nutria pelo santo católico, unindo o amor familiar ao resgate de uma herança espiritual e do sincretismo preservado no Asé Barulépè.Naquele primeiro momento, a celebração reuniu orações, cânticos, a partilha de um almoço e a presença determinante de cinco rezadeiras vindas da Bahia, que trouxeram suas vozes, ladainhas e rezas ancestrais para abençoar o barracão.

2019

As Portas se Abrem para a Comunidade

A segunda edição abriu ainda mais as portas à comunidade, reafirmando que o encontro já se tornara um marco no calendário da casa.

2019

2020

Duas Casas, Uma Só Fé

Em meio às incertezas globais, a celebração adaptou seus ritos com intimidade e devoção. Um gesto histórico marcou esse ano: as imagens de Santo Antônio do Asé Barulépè e do Asé Ògun Wares foram colocadas lado a lado no salão de Sàngò, simbolizando a irmandade entre as casas.

2020

2021

Quando a Fé Virou Ação: Nasce o Ebô Para Todos

No auge da pandemia de COVID-19, os tambores se silenciaram e os portões se fecharam, mas a fé se converteu em ação social. A imagem centenária de Santo Antônio tornou-se o símbolo central da celebração, e nasceu o coletivo “Ebô Para Todos”, acompanhado da promessa de criar uma feijoada beneficente para combater a fome e a vulnerabilidade alimentar na região de Duque de Caxias.

2021

2022

O Retorno dos Tambores

Com o retorno presencial, os tambores voltaram a rufar e a Feijoada Beneficente de Santo Antônio foi servida gratuitamente a todos os visitantes, tornando-se tradição definitiva sob a guarda da ASAP (Associação Terreiro Santo Antônio dos Pobres).

2022

2023 & 2024

Da Tradição ao Festival Cultural

O evento incorporou apresentações musicais, feira de artesãos, gastronomia ancestral e visibilidade na imprensa. Em 2024, a 7ª edição consolidou-se oficialmente como um Festival Cultural, trazendo a criação da identidade visual oficial pelo artista plástico Laércio Cubas.

2023 & 2024

2025

(8ª Edição) Reconhecimento Oficial: o Festival Vira Ponto de Cultura

O festival expandiu-se para dois dias de celebração — com a noite de reza e o solene “Adeus a Santo Antônio” — recebendo o reconhecimento institucional como Ponto de Cultura, com apoio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e do Ministério da Cultura.

2025

A Liturgia Viva do Festival

O Festival Cultural conserva uma liturgia viva e emocionante que encanta moradores e visitantes:


1. A Lavagem da Colina
Antes de o andor subir, as mulheres do terreiro (ekedes, iaôs e mais velhas) sobem a colina lavando os degraus e as ruas com água de cheiro, ervas maceradas, canjica e pipoca, purificando o caminho para o cortejo.

2. O Encontro Solene
O cortejo é conduzido pela complementaridade entre o masculino e o feminino: enquanto os homens carregam o andor com a imagem centenária, as mulheres sustentam o Stardart (Estandarte), anunciando a fé ao mundo ao som dos atabaques e das ladainhas.

3. O Pão de Santo Antônio
Inspirado na tradição católica popular de caridade do século XIII, o festival abençoa e distribui os pães de Santo Antônio à comunidade. No terreiro, esse gesto une a herança europeia ao axé do Candomblé, transformando o pão em símbolo de combate à fome e justiça social.

Em 2025, o festival apresentou um de seus marcos culturais mais singulares: o nascimento do Boi de Vila Rosário (O Bumba meu boi do Asé Barulépè). Consagrado ao Òrìṣà Òsógìyan e enfeitado com trajes prateados e fitas, o boi nasceu em um rito sagrado embalado pelas rezas das baianas. Dando origem ao inédito Sotaque de Cabula, o boi protagoniza o Auto do Boi Prateado, um espetáculo ritualístico onde a tradição boiadeira dialoga diretamente com os orixás e encantados. Na 8ª edição, o Boi do Asé Barulépè realizou um encontro marcante com os tambores ancestrais do grupo de Jongo da Cia. Banto.

Como forma de homenagear e valorizar quem dedica a vida à preservação das tradições afro-brasileiras e dos direitos humanos, a ASAP criou o Prêmio Lírio de Prata. Na edição de 2025, a solenidade de entrega ocupou um importante equipamento público da cidade: a Biblioteca Municipal Leonel de Moura Brizola, reunindo líderes espirituais, mestres da cultura, pesquisadores e artistas de todo o país.

No Terreiro Santo Antônio dos Pobres, o catolicismo popular e o Candomblé caminham juntos sem confrontos ou hierarquias. O Festival Cultural Reza de Santo Antônio dos Pobres reafirma que a espiritualidade é uma força de acolhimento, cidadania e amor ao próximo, mostrando ao Brasil que o Axé também caminha pelas ruas iluminando caminhos de resistência e união.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima