Fé, Ancestralidade e Resistência na Baixada Fluminense
Conheça a história do evento que nasceu de uma reunião intimista no terreiro e se consolidou como um dos maiores movimentos de sincretismo religioso, cultura popular e solidariedade de Duque de Caxias.
Tudo começou em 2018, de maneira simples e singela. O desejo de celebrar Santo Antônio nasceu no coração de amigos próximos ao terreiro Ilê Ògún Megégé – Asé Barulépè, fundado em 1944 por Pai Valdemiro T' Sàngó. A ideia de trazer essa celebração para o centro da vida comunitária foi concretizada pelo Bàbàlorísá Sandro T' Òsógìyan, neto de Valdemiro.A inspiração surgiu após Sandro participar de uma homenagem a Santo Antônio na casa do Bàbàlorísá Celso de Ògun (Asé Ògun Wares). O gesto reacendeu a lembrança da profunda devoção que seu avô nutria pelo santo católico, unindo o amor familiar ao resgate de uma herança espiritual e do sincretismo preservado no Asé Barulépè.Naquele primeiro momento, a celebração reuniu orações, cânticos, a partilha de um almoço e a presença determinante de cinco rezadeiras vindas da Bahia, que trouxeram suas vozes, ladainhas e rezas ancestrais para abençoar o barracão.
A Liturgia Viva do Festival
O Festival Cultural conserva uma liturgia viva e emocionante que encanta moradores e visitantes:
1. A Lavagem da Colina
Antes de o andor subir, as mulheres do terreiro (ekedes, iaôs e mais velhas) sobem a colina lavando os degraus e as ruas com água de cheiro, ervas maceradas, canjica e pipoca, purificando o caminho para o cortejo.
2. O Encontro Solene
O cortejo é conduzido pela complementaridade entre o masculino e o feminino: enquanto os homens carregam o andor com a imagem centenária, as mulheres sustentam o Stardart (Estandarte), anunciando a fé ao mundo ao som dos atabaques e das ladainhas.
3. O Pão de Santo Antônio
Inspirado na tradição católica popular de caridade do século XIII, o festival abençoa e distribui os pães de Santo Antônio à comunidade. No terreiro, esse gesto une a herança europeia ao axé do Candomblé, transformando o pão em símbolo de combate à fome e justiça social.
Em 2025, o festival apresentou um de seus marcos culturais mais singulares: o nascimento do Boi de Vila Rosário (O Bumba meu boi do Asé Barulépè). Consagrado ao Òrìṣà Òsógìyan e enfeitado com trajes prateados e fitas, o boi nasceu em um rito sagrado embalado pelas rezas das baianas. Dando origem ao inédito Sotaque de Cabula, o boi protagoniza o Auto do Boi Prateado, um espetáculo ritualístico onde a tradição boiadeira dialoga diretamente com os orixás e encantados. Na 8ª edição, o Boi do Asé Barulépè realizou um encontro marcante com os tambores ancestrais do grupo de Jongo da Cia. Banto.
Como forma de homenagear e valorizar quem dedica a vida à preservação das tradições afro-brasileiras e dos direitos humanos, a ASAP criou o Prêmio Lírio de Prata. Na edição de 2025, a solenidade de entrega ocupou um importante equipamento público da cidade: a Biblioteca Municipal Leonel de Moura Brizola, reunindo líderes espirituais, mestres da cultura, pesquisadores e artistas de todo o país.
No Terreiro Santo Antônio dos Pobres, o catolicismo popular e o Candomblé caminham juntos sem confrontos ou hierarquias. O Festival Cultural Reza de Santo Antônio dos Pobres reafirma que a espiritualidade é uma força de acolhimento, cidadania e amor ao próximo, mostrando ao Brasil que o Axé também caminha pelas ruas iluminando caminhos de resistência e união.
