Promoção de alimentação saudável, resgate de saberes culinários africanos e troca de receitas e histórias entre mulheres da comunidade
A oficina “Cozinhando com as Yabás” foi uma celebração da culinária ancestral, da espiritualidade feminina e do poder de nutrir o corpo e a alma. Mais do que um simples preparo de alimentos, foi uma jornada sensorial e cultural que honrou as divindades femininas do Candomblé, as Yabás, e resgatou a sabedoria de suas cozinhas sagradas. Transcendeu o ato de cozinhar e tornou-se um pilar na preservação dos saberes ancestrais e na valorização da culinária como elo sagrado entre o divino e o humano.
A experiência começou com uma profunda imersão no universo das Yabás. Foram compartilhadas histórias, mitos e características de Oxum, Iemanjá, Iansã, Nanã, Obá e Ewá, destacando suas preferências culinárias e a simbologia de cada alimento a elas associado. Esse momento inicial estabeleceu a conexão espiritual com as divindades, transformando o ato de cozinhar em um ritual de oferenda e gratidão.
Sob a orientação de cozinheiras experientes e guardiãs do saber ancestral, os participantes aprenderam a preparar pratos que são verdadeiras joias da culinária afro-brasileira e que representam as oferendas (comidas de santo) de cada Yabá. O acarajé e o abará, de Iansã, trazem a energia vibrante do dendê e a pimenta que remete à força da orixá dos ventos e tempestades. O omolocum, de Oxum, feito de feijão fradinho com ovos cozidos, mel e azeite de dendê, simboliza a riqueza, o amor e a doçura da senhora das águas doces. O manjar de coco, de Iemanjá, traz a delicadeza e a pureza do coco em homenagem à rainha do mar, senhora da fertilidade e da maternidade. O deburu, de Nanã, a pipoca estourada, representa a ancestralidade e a transformação, ligadas à sabedoria da mais antiga das Yabás. Já o vatapá, comida genérica de várias Yabás, mas com adaptações, reúne cremosidade e sabor marcante e explora as nuances que agradam a diferentes orixás.
A oficina enfatizou a importância de ingredientes frescos e de qualidade, muitos deles cultivados de forma sustentável. As técnicas de preparo foram transmitidas com respeito às tradições, valorizando o uso das mãos, o tempero com afeto e a paciência necessária para que cada sabor se desenvolvesse plenamente. Foi um resgate de saberes que muitas vezes se perdem na culinária moderna.
Além do aprendizado das receitas, a oficina reforçou a culinária como um ato de cuidado, tanto para quem prepara quanto para quem recebe. A partilha dos alimentos, em um ambiente de confraternização e respeito, selou a experiência e a transformou em um banquete sagrado, onde todos puderam saborear não apenas a comida, mas a energia e a história que cada prato carregava. Em sua essência, “Cozinhando com as Yabás” foi um ato de empoderamento feminino e de resgate cultural. Através da culinária, as participantes puderam se conectar com a força, a sabedoria e a beleza das Yabás, reforçando a importância da mulher na transmissão de conhecimentos e na manutenção das tradições. Foi uma forma de celebrar a herança africana e sua influência inestimável na formação da identidade brasileira.
A importância de manter viva essa chama reside em múltiplos aspectos, que se entrelaçam na fé, na cultura e na própria sustentação da comunidade. A culinária das Yabás não é apenas um conjunto de receitas, mas um repositório vivo de histórias, rituais e filosofias. Cada ingrediente, cada tempero, cada técnica de preparo carrega a memória de gerações, a sabedoria dos mais velhos e a conexão com o sagrado. Preservar esses saberes é garantir que a identidade cultural afro-brasileira não se perca, que as tradições religiosas do Candomblé continuem a florescer e que as futuras gerações possam beber dessa fonte de conhecimento. É um ato de resistência e de afirmação cultural em um mundo que muitas vezes tenta apagar essas raízes.
No contexto religioso afro-brasileiro, o alimento é muito mais do que sustento físico: é uma ponte para o sagrado. As “comidas de santo” são oferendas que estabelecem um diálogo com os Orixás, fortalecendo os laços espirituais e buscando suas bênçãos. Ao mesmo tempo, o ato de partilhar essas comidas na comunidade, especialmente durante as festas e rituais, cria um profundo senso de comunhão. É o momento em que todos, filhos e visitantes, se sentam à mesma mesa, reforçando os laços de irmandade, solidariedade e pertencimento. A comida temperada com axé nutre não apenas o corpo, mas a alma, o espírito e o coletivo.
O Terreiro do Asé Barulèpé encarna essa filosofia de forma exemplar. Nele, o ato de alimentar é uma das mais elevadas expressões de axé (energia vital e poder). A cozinha do terreiro é um espaço sagrado, onde as mãos que preparam os alimentos são guiadas pela fé e pelo respeito às tradições. O Axé Barulèpé compreende que nutrir seus filhos e visitantes é uma forma de acolhimento, de cuidado e de transmissão de axé. Para os filhos da casa, a comida servida fortalece os laços com a ancestralidade, com os Orixás e com a própria comunidade, sendo um alimento que cura, protege e energiza para os desafios da vida. Para os visitantes, oferecer alimento é um gesto de hospitalidade e de abertura, uma forma de compartilhar a cultura, a fé e o axé da casa, convidando-os a participar da comunhão e a sentir a energia do terreiro. É uma demonstração de que a porta está aberta e de que todos são bem-vindos à mesa do Orixá e da comunidade.
Foi a partir dessa compreensão da importância do alimento como veículo de axé e de comunhão que a ASAP, inspirada nos valores do Terreiro do Axé Barulèpé, fundou sua cozinha solidária: “Cozinhando com as Yabás”. A iniciativa materializa a crença de que o axé do alimento não deve se restringir aos muros do terreiro, mas se estender para nutrir a comunidade em geral, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade. A cozinha leva para as ruas e para as casas a energia e a sabedoria das Yabás, em pratos preparados com o mesmo carinho, respeito e intenção que seriam dedicados aos Orixás. Assim, combate a fome, oferecendo refeições nutritivas e saborosas que aliviam o sofrimento de quem não tem o que comer. Promove a dignidade, pois o alimento preparado com axé e oferecido com respeito resgata o valor humano. Dissemina a cultura, já que cada prato servido é uma pequena aula sobre a culinária afro-brasileira e a riqueza de suas tradições. E fortalece os laços comunitários, criando pontes entre o terreiro e a comunidade externa e mostrando que a fé se traduz em ação social e cuidado com o próximo.
A cozinha solidária “Cozinhando com as Yabás” não é, portanto, apenas um projeto assistencial. É a extensão de um legado ancestral, uma manifestação do axé das Yabás e do Terreiro do Axé Barulèpé, que se materializa no alimento para nutrir, acolher e transformar vidas. A oficina deixou um legado de sabores, conhecimentos e conexões, mostrando que a cozinha é, de fato, um espaço sagrado onde a fé, a cultura e a vida se encontram e se manifestam de forma deliciosa e profunda.
